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As cidades invisíveis

Proposta de Bernardo Correia - Agrupamento de Escolas de Ponte de Sor

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As “Cidades Invisíveis”, de Ítalo Calvino, é um romance pertencente à literatura surrealista, publicado em 1972. Considerada por muitos como sendo umas das obras-primas do século XX, esta revelou-se como sendo um elemento impulsionador na literatura experimental.

Estamos em pleno século XIII e o lendário viajante Marco Polo, após uma viagem que terá durado cerca de 30 dias, chega às portas do Extremo Oriente. Lá, conhece a capital do vasto império de Kublai Kan: Cambaluc, atual Pequim, local onde terá desempenhado importantes funções diplomáticas e permanecido durante 17 anos.

Contudo, o livro assume um certo grau de particularidade aquando da imaginação de Marco Polo nascem cidades, cidades essas que, de facto, têm nome de mulher, tais como: Adelma, Aglaura, Pentesileia. É, portanto, na memória do maior explorador do Mundo que viaja o homem mais poderoso da Terra pela vastidão do seu império, usando como bússola as descrições minuciosas e factuais de Marco Polo das paisagens que lhe pertencem mas que nunca terá a possibilidade de as ver com os seus próprios olhos. Afinal, as 55 cidades que o jovem veneziano irá descrever na conversa ficcionada pelo escritor, estando estas agrupadas em 11 temas, nomeadamente: “As cidades e a memória”, “As cidades e o céu”, entre outros, permanecerão invisíveis, pois são lugares da imaginação.

De facto, a grande maioria das cidades descritas são completamente surreais: desde cidades debaixo de terra ou de água, a cidades suspensas ou que consistem em duas metades, em que uma delas periodicamente viaja por outras paragens. Mas, para além do surrealismo físico, estas cidades são também descritas através dos sentimentos dos 

seus habitantes, dos quais conhecemos os pensamentos e estados de espírito, que, frequentemente, se interiorizam na própria cidade descrita. As “Cidades Invisíveis” refletem, portanto, uma escrita “cerebral e sentimental”, segundo Nuno Camarneiro, escritor português.

Não obstante o livro possuir uma história bastante elucidativa e bem estruturada, seguindo um esquema cuidado e preciso, no qual cada tema reúne 5 cidades, o leitor não deixa de se sentir completamente enredado no que está a ler, perdendo-se pelas teias de palavras e elucubrações fantásticas do escritor. A própria escrita que se encontra impregnada nesta obra-prima é simplesmente genial: faz-nos viajar, imaginar, pensar. Pensar que todas as cidades descritas podem ser lados de apenas uma cidade, pensar no verdadeiro significado de tantas descrições e reflexões, pensar que, de facto, a imaginação pode alcançar dimensões colossais como as de uma megalópole idealizada pela condição humana existente em cada um de nós. Para mim, uma das conclusões a tirar deste livro é que a imaginação humana tem muita força: força para construir cidades, fraqueza para destruir o “inferno dos vivos”. Termino esta apresentação tal como o livro termina, com esta frase genial:

“O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar”.

Como a história é relatada em Itália no Séc. XIII-XIV, aproveitei, também, para colocar a peça "Questa fanciulla, Amor", de Francesco Landini, como música de fundo...

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